terça-feira, 16 de novembro de 2010

A HORA DO AJUSTE FISCAL

“Cuidaremos de nossa economia com toda a responsabilidade.”
(Dilma Rousseff)

De acordo com estimativas do Banco Central, o Brasil deverá fechar o ano com um total de US$ 180 bilhões em exportações – 18% a mais que no ano passado. Apesar de ainda representar 9% a menos que o recorde histórico alcançado em 2008, o governo Lula encerrará a sua segunda gestão consecutiva com um crescimento econômico extraordinário, depois de tantos anos de estagnação e inflação alta.
Uma das principais razões para o sucesso do governo petista foi um cenário internacional favorável, quando a economia mundial crescia a um ritmo acelerado e o mundo precisava das matérias-primas brasileiras para crescer, o que permitiu ao Brasil dobrar suas exportações em apenas cinco primeiros anos. Com o vento soprando a seu favor no início do seu primeiro mandato, em 2003, o presidente Lula superou com maestria a crise financeira que acometeu o mundo em 2008, quando se voltou para o mercado interno, investindo dinheiro público quando a economia se encontrava retraída. Tal estratégia fez com que saíssemos logo da crise, mas teve como efeito colateral o fato de o governo ter-se aproveitado para engordar a máquina administrativa e distribuir algumas benesses para servidores e aposentados, formando uma bola de neve que nos fará pagar um alto preço no futuro.
Em contrapartida, vários especialistas acreditam que a presidente eleita Dilma Rousseff poderá não ter a mesma sorte. Um forte sinal disso é a guerra cambial promovida pelos Estados Unidos com o anúncio de mais um pacote econômico, em que o governo americano pretende comprar títulos públicos no mercado e injetar dinheiro vivo nos bancos privados, o que poderá provocar ainda mais a desvalorização do dólar e tornar relativamente mais caro e menos competitivo tudo o que for produzido no Brasil, e a política da China de subvalorização de sua moeda – o iuane – para estimular o consumo interno e depender menos das exportações. Se a medida adotada pelo presidente americano Barack Obama der certo, o Brasil poderá se beneficiar com a provável recuperação da economia americana e mundial, porém, alguns críticos do setor econômico dizem que o pacote econômico americano terá um efeito imediato ruim para os brasileiros, visto que o mais provável é que esse dinheiro extra migre para países com a taxa de juros maior do que a americana (0,25% ao ano) como é o caso do Brasil, que possui o maior juro real do mercado – 43 vezes maior que a taxa anual americana.
Os conselhos dos mais renomados nomes do setor é que a nova presidente amplie o seu discurso de campanha de “continuidade” e reforce a estratégia de política anticíclica adotada pelo presidente Lula, o que se acredita pelo seu primeiro discurso como presidente eleita ao descartar a promessa de campanha de desnecessidade de ajustar as contas públicas e dizer que administrará com austeridade fiscal e assumiu o compromisso de zelar pelo tripé que permitiu a consolidação da estabilidade econômica do país na última década: o equilíbrio das contas públicas, o sistema de metas de inflação e a política de câmbio flutuante. Anunciou que pretende reduzir os juros reais da taxa Selic dos atuais 5,5% para 2% ao ano até 2014 – quando provavelmente pretende se reeleger presidente –, promover a reforma tributária e baixar os impostos sobre a produção e consumo, não se mostrando, contudo, muito disposta a cumprir promessa de campanha quanto a volta da cobrança da CPMF, o que certamente acontecerá.
Além do cenário externo adverso, o governo Dilma enfrentará imensos desafios, sendo o principal deles o controle dos gastos públicos, para que possa gerar os recursos necessários para realizar os enormes investimentos prometidos em todas as áreas, e, com isso, fazer o país crescer em ritmo acelerado de forma sustentável, sem gerar pressões inflacionárias, promover a redução de juros, estimular a inovação industrial e segurar a valorização do real – rico legado do governo FHC. Com a manutenção ou a elevação da atual taxa de juros, o Brasil continuará atraindo o capital especulativo fazendo o dólar cair ainda mais, e o maior risco, segundo especialistas, é que há espaço para a situação piorar se o governo continuar gastando além de sua capacidade, como vem fazendo nos últimos anos. A dificuldade para resolver esse problema, no entanto, será enfrentar funcionários públicos federais e aposentados, que exigem aumentos e são uma das bases de apoio do PT.
É cediço que nenhuma política econômica traz mais benefícios à população do que o controle da inflação, que permite ter confiança na estabilidade dos preços, como bem ressalta José Fucs da revista Época, sendo necessário para isso a efetiva realização do ajuste fiscal, o que fará com que a primeira mulher a governar o país mude em muito o tom do discurso defendido durante toda a campanha eleitoral.

0 comentários:

Postar um comentário